domingo, 3 de junho de 2007

Nascimentos e lançamentos

(publicada originalmente em 8/10/1998)


De certa forma, um salão de automóveis como o de Paris* é, para os designers, engenheiros e técnicos da indústria automobilística, o que é um berçário para papais e mamães. Afinal, depois de um longo tempo de expectativas, ansiedade e doses generosas de carinho e dedicação, eles (pais de bebês e de lançamentos) apresentam ao mundo suas mais novas criações. E se o início da produção de um ser humano é mais simples – e, certamente, muito mais divertido – do que o ponto de partida para um novo modelo de carro, a tensão que envolve seu período de gestação pode ser muito semelhante.

Para que um automóvel nasça, é preciso antes que haja uma pesquisa de mercado para saber se há lugar para ele no mundo – o que a superpopulação do planeta nos mostra que não é levado em conta na procriação humana. Longe de ser puro rompante, a criação de um carro é algo predominantemente técnico. A emoção embutida no projeto é dosada, pensada e controlada. E se homens e mulheres já nascem linhas de montagem aptas à produção em série, a cada novo produto, as fábricas se vêem obrigadas a remodelar boa parte de suas instalações, substituir ferramentas e, muitas vezes, operários.

Afinal de contas, o modelo Gente 1.0 já é produzido há milhões de anos com sucesso e, além de tudo, não tem garantia de fábrica e não prevê recalls ou queixas ao Procon. E se ao longo dos anos um filho não satisfaz seus pais, o máximo que eles podem fazer é psicanálise. Já cada novo automóvel que surge tem que ter o que há de mais moderno em tecnologia e não pode apresentar defeitos sob o risco de manchar perigosamente a imagem de seu fabricante.

Bem, este colunista nunca fabricou automóvel (carrinho de rolimã não vale!), mas acaba de lançar no mercado seu segundo produto: um garotão de bochechas rosadas e apetite de leão. Por isso, leitor, peço que desculpe qualquer exagero nas comparações. Como os engenheiros do Salão de Paris diante de suas novas criações, estou todo prosa com a novidade.

(*) – Na mesma edição, o caderno de automóveis publicou uma grande matéria sobre o Salão de Automóveis de Paris de 1998.

2 comentários:

Anônimo disse...

É, mas tem gente que acaba indo cedo pro ferro-velho!

Anônimo disse...

É, mas tem gente que acaba indo pro ferro-velho cedo demais!