(Publicada originalmente em 11/11/2004)
A pergunta acima é a que mais escuto e que, certamente, a que todos os colegas que escrevem sobre automóveis escutam. É alguém comentar “ele escreve no Dia, sobre carros” e, quase de bate-pronto, a frase terminada com a interrogação aparecer. Ainda que, na prática, poucos do que perguntam tenham realmente a intenção de comprar um novo carro nos próximos dias ou semanas. E isso acontece porque quase todo mundo gostaria de colocar um carango novo na garagem – quando não sonha em colocar ali o primeiro carro.
A resposta pode parecer simples. Afinal, quem está permanentemente inteirado do mundo automobilístico – por necessidade profissional e, no meu caso, por prazer – têm acesso a uma enorme quantidade de informações técnicas e práticas sobre todos os modelos disponíveis. E, não raro, já deu até umas voltinhas ao volante da maioria desses modelos. Mais ou menos como os conhecedores de vinho, que são capazes de apontar as melhores garrafas de cada safra, os jornalistas automotivos deveriam poder indicar os melhores modelos e marcas de cada ano.
Pois se com os vinhos a questão costuma se resumir ao custo e benefício, com os carros a coisa se complica um tanto mais. Para começo de conversa, ninguém compra vinho usado – e os automóveis, quando bem tratados, podem ser boas compras mesmo depois de vários anos de serviços prestados. Além disso – e me perdoem os enólogos se escrevo algum absurdo, pois de vinhos só entendo, e pouco, de bebê-los moderadamente e sem critérios dignos de nota –, quando escolhemos um carro, além de seu preço e do prazer (ao dirigir) que ele proporciona, devemos levar em conta outras características como praticidade, consumo, aplicações no dia-a-dia (se vai ser usado somente na cidade, com qual freqüência, para transportar quantas pessoas) etc. É claro que, como o melhor vinho da carta de um bom restaurante, comprar um dos modelos mais caros e sofisticados do mercado – quando a carteira não é um condicionante – é garantia quase certa de satisfação, qualidade, impacto social. Todo mundo, nas mesas em volta (caso do vinho) ou no quarteirão (caso do carrão) vai notar e admirar a sua escolha. Por outro lado, até onde eu saiba, tomar um vinho caríssimo em um bom restaurante não aumenta as chances de se tornar vitima de seqüestro. Já saracotear por aí a bordo de um mega-carango...
Enfim – que estamos nos perdendo nessa conversa –, indicar “o melhor” carro para alguém não é das coisas mais cartesianas. E, para sair dessa enrascada, seguindo uma tradição ancestral de família, costumo responder a pergunta com outras duas ou três, sobre o uso, o quanto se quer gastar, o estilo de vida etc. E, invariavelmente, termino o meu “script” padrão com um só conselho concreto e útil: antes de comprar qualquer carro, faça um test-drive com todos os candidatos. No final das contas, decidido o preço e a faixa de segmento do modelo, o melhor critério para escolher um carro novo é a afinidade. E, no caso dos usados, a precaução. Mas isso já é assunto para outra conversa.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
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