(publicado originalmente em 1º/09/2005
Para quem, como eu, vem de uma família de classe média, que tinha um carro na garagem (e outros tantos na memória), chegar à maioridade traz junto a encantadora possibilidade de tirar carteira de motorista e – finalmente! – ganhar as ruas por conta própria. Isso implica em também poder escolher caminhos mais longos, destinos mais distantes. Ou seja, se encaixa com perfeição com o saudável movimento em direção à liberdade e à independência que costuma acompanhar essa fase de nossas vidas.
No meu caso, o carro era um Fuscão, personagem presente em minha infância e que, à época dos meus 18, estava inteiramente disponível. Lembro-me vagamente dos litros e litros de suor deixados nos bancos dos carros da auto-escola; menos um pouco do nervosismo de fazer as provas práticas – e, no meu tempo, isso significava enfrentar muito mais do que o simples desafio de dirigir corretamente e estacionar o carro sem derrubar as balizas. Mas me lembro com clareza e prazer da primeira vez em que saí da garagem em Laranjeiras, ao volante, para buscar uma namorada em Ipanema. Meu pai, no banco do carona, me acompanhou pelos primeiros 100 metros. Daí, para não me atrapalhar (somados, nossos nervosismos abarrotavam o fusca), pediu que eu parasse, desceu do carro e me desejou sorte.
Enfrentar o medo e a insegurança dos que voam para fora do ninho pela primeira vez é fácil, já que sobra pouco espaço para o temor quando se “voa” pela primeira vez. De qualquer modo, zeloso até demais, me lembro que levei meses para passar dos 60 km/h, merecendo buzinadas e reclamações dos veteranos. Com o tempo, dirigir passou a ser tão normal e comum quanto outros gestos do dia-a-dia. Mas o carro na garagem, a possibilidade de usá-lo, quando quisesse, para ir a qualquer lugar, nunca perdeu para mim o ar de coisa mágica, de bênção, de manifestação de liberdade.
Conto isso tudo hoje a você, leitor, porque acabo de olhar para a minha carteira de habilitação e percebi que, neste mês de setembro, faz exatos 25 anos daquela primeira tarde em que fiz meu primeiro “vôo solo”. E percebi que o tempo anda muito mais rápido que o fusca do meu pai.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
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