segunda-feira, 4 de junho de 2007

Combustível alternativo na torneira

(publicado originalmente em 7/07/2005)

Tanta conversa sobre motores flexíveis e combustíveis alternativos me fizeram resgatar uma lembrança dos tempos em que era criança, lá pelos fins dos anos 1960, início dos 1970. Naquele tempo, lembro de ter visto um dia na televisão, na casa de meus avós, um sujeito apresentar um carro revolucionário. O programa era o do Flávio Cavalcanti, uma combinação de variedades, calouros e sensacionalismo na finada TV Tupi. Na minha memória, o tal programa era “interminável” – pois começava por volta das oito da noite e terminava depois de minha hora de dormir. Acho que nunca cheguei a assistir ao seu encerramento. O tal inventor, no entanto, me fez dormir um pouco mais tarde naquela noite.

Alardeado pelo apresentador como “exclusivo e inédito” e prometido sempre para depois dos próximos comerciais acabou aparecendo bem tarde – me lembro da expressão séria do Flávio Cavalcanti, tirando seus óculos quadrados e de armação escura, encarando a câmera e pedindo: “nossos comerciais, por favor,”.

Naqueles tempos em que o videotape era novidade e as câmeras de vídeo uns trambolhos, as raras reportagens externas eram feitas em filme. Com as limitações técnicas da época, não era raro surgirem defeitos na projeção, entrarem cenas erradas etc. Assim, quando finalmente o apresentador chamou a reportagem sobre o “carro revolucionário”, e entrou um filme sem som, mostrando um velho Chevrolet preto dos anos 1940, achei que tinham colocado as imagens erradas no ar. Por uns 10 ou pouco mais segundos, vi na tela um senhor de cabelos brancos com uma mangueira de jardim, que parecia jogar água sobre o velho carro, depois entrar nele, dar a partida e sair guiando pela rua.

Quando o programa voltou para o auditório, o tal senhor estava ao lado do apresentador, no palco, e o mistério, ao menos em parte, foi explicado. “Estamos aqui com o Professor Fulano de Tal, que criou e patenteou o incrível automóvel que os senhores acabam de ver”, foi mais ou menos o que disse, com sua voz metálica e enérgica, o Flávio Cavalcanti. “Um automóvel que irá resolver todos os problemas de transporte, um carro movido à água”.

Lembro-me do “oohhhhh” geral do auditório e de um comentário igualmente perplexo do meu avô, que assistia ao programa comigo. Mas, infelizmente, não me lembro de nada sobre a possível explicação que o tal inventor possa ter dado sobre o funcionamento do motor de seu fantástico automóvel. Como nunca mais ouvi falar sobre esse tipo de carro, presumo que fosse tão verdadeiro quanto o rapaz que, no quadro anterior, fumava e soltava a fumaça pelos ouvidos – com mal-disfarçados tubos maquiados, ligando sua boca às orelhas. Naquela noite, no entanto, sonhei que dirigia o velho Dodge 50 e poucos do meu avô, abastecido na torneira de casa.

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