sexta-feira, 29 de junho de 2007

Algumas colunas publicadas em 1999

Tinha um bueiro (sem tampa) no meio do caminho
(Publicada originalmente em 11/02/99)
Meados de 1994, domingo, por volta das 20h. Estava voltando de Friburgo e no carro, além de mim e de minha mulher, vinham dois oficiais bombeiros para os quais dera carona. Quando fui parar para deixar os caronas, num recuo para parada de ônibus da Av. Francisco Bicalho, uma das rodas do carro bateu em algo e, imediatamente, escutei o ruído do pneu se esvaziando. Pedi então aos bombeiros que me ajudassem a trocar o pneu e, enquanto eles retiravam sua bagagem, dei a volta no carro e fui abrir o porta-malas.
Antes que conseguisse fazer isso, no entanto, caí num bueiro – havia sido ele a causa do pneu danificado –, sem tampa, que estava quase invisível pela escuridão do local. Por sorte, tive o reflexo de abrir os braços no momento da queda e consegui me segurar em uma das bordas. Uns dois metros abaixo dos meus pés, uma torrente de água fétida rugia em direção ao Canal do Mangue – soube depois que havia chovido muito, horas antes. Se não houvesse me segurado na borda, não estaria hoje aqui escrevendo este relato. Na queda, fiz um corte na perna direita e, pelo impacto, machuquei meu ombro esquerdo e toda a musculatura do braço.
Ajudado pelos bombeiros – que tentaram me convencer a ir até o Instituto Médico Legal e fazer um exame para, depois, entrar com um processo contra a prefeitura – troquei o pneu do carro e fui para casa. Tive pressa, pois sabia que, quando minha musculatura esfriasse, não mais poderia dirigir.
Levei três pontos na perna e fiquei uma semana sem trabalhar – e mais três meses até recuperar, a custo de muita fisioterapia, todos os movimentos de meu braço esquerdo. Por desânimo, descrença ou preguiça, nunca processei a prefeitura. Hoje, talvez o fizesse.


POR QUE ALGUNS MODELOS DURAM TANTO?

(Publicada originalmente em 18/02/99)
A pergunta acima – feita por um conhecido na fila do supermercado – tem uma resposta fácil: porque esses carros satisfazem os consumidores e conseguem ser uma boa opção de compra por muitos anos. O difícil ‚ chegar a esses modelos, afinal, eles são o sonho de toda a indústria automobilística. Idealizar, pesquisar, projetar, adequar a fábrica e os fornecedores e, finalmente, construir e lançar um novo carro ‚ caríssimo. Por isso, quanto mais tempo ele permanecer na linha de produção, mais barata vai ficando sua fabricação – já que o custo de projeto vai sendo amortizado ao longo dos anos. Do economês para o português: um projeto que funciona por 15 anos é mais barato do que outros três, que funcionem por cinco anos cada.
Por isso tudo, um modelo que, como o Uno, complete 15 anos sem alterações mais profundas, ‚ um verdadeiro gol (ops!) de placa da Fiat, desses entram para a antologia do ramo. Até a queda do Brasil na real, quer dizer, até a queda do Real há poucas semanas, os planos da montadora italiana eram de retirar o carrinho de produção no final deste ano. O Palio vai muito bem de vendas e suas versões mais baratas poderiam muito bem substituir a já reduzida linha do veterano popular. Agora com toda essa confusão financeira, pode ser até que o carro continue em linha por mais uns tempos – nunca é demais lembrar que a Fiat continuou fabricando o modelo 147, na Argentina, até meados dos anos 90(!).
As maiores virtudes do Uno são, sem dúvida, um dos melhores aproveitamentos de espaço interno já conseguidas pelos engenheiros automotivos – ele ‚ grande por dentro e pequeno por fora, sendo mais espaçoso do que todos os concorrentes de seu segmento, inclusive o Palio –, um desenho original e sua mecânica robusta e confiável. Tão confiável que conseguiu, num tempo relativamente curto, melhorar a castigada imagem da marca no Brasil, um tanto desgastada pelos problemas com a linha 147. A Fiat tem, portanto bons motivos para cantar parabéns para o seu modelo debutante.

QUESTÃO DE GOSTO E DE SORTE
Armando gostava de, digamos assim, certas proeminências existentes na retaguarda do corpo das moças bem fornidas – o acanhamento da descrição aí está para combinar com o jeitão, tímido e envergonhado, do artista em questão. Por esses azares da vida, nosso herói sempre teve a seu lado moças que reuniam dezenas de outros predicados, mas não “esse”.
Fetiche, mania, preferência, tara... Fosse lá o que fosse, já estava se transformando em uma tremenda frustração. Tão grande que acabava por minar qualquer chance de seus relacionamentos darem certo. Além desse, Armando tinha outra grande frustração na vida: andar a pé. Já havia tentado tirar carteira seis vezes. Era sempre reprovado, logo nos primeiros instantes da prova prática - na teórica, passava sem erros. Tão grande era a sua falta de coordenação e de reflexos, que chegou a destruir dois carros da auto-escola.
A sorte de nosso amigo mudou no dia em que foi atropelado por Silvinha. Calma, querido leitor! O cronista já curou sua ressaca momesca e não está matando seu personagem por causa de alguma enxaqueca cívica. O caso aconteceu no estacionamento de um supermercado e Armando sobreviveu a ele sem arranhões – a moça saía de uma vaga com seu carro, um desses modelos de três volumes e traseira alta, que dificulta a visão do motorista em certos ângulos, e não percebeu que o rapaz passava por ali.
Armando se empolgou com Silvinha quando ela, entre preocupada e carinhosa, veio ajudá-lo a se levantar do chão e catar suas compras esparramadas. E se chegou a ficar um pouco decepcionado na primeira vez que a moça lhe deu as costas ("ainda não foi dessa vez!", pensou aborrecido), adorou quando ela lhe ofereceu carona até em casa e, na despedida, convidou-o para pegar um cineminha.
A amizade engatou uma segunda e virou romance. Resignado e quase feliz, nosso personagem filosofou com seus botões: "Se ela não tem o “derrière” dos meus sonhos, pelo menos, o carro dela tem".
Moral da história: a preferência dos brasileiros pelos carros com “bundinha” vai muito além do puro design.

(Publicadas originalmente entre fev / mar 1999)

CARRO DENOREX E CARRO ORLOF
Como tudo na vida, existem carros que aparentam ser o que não são. Os mais comuns são aqueles modelos vestidos como esportivos, cheios de spoilers, aerofólios, luzes auxiliares “a la” rali, “rodas de liga leve e pneus de perfil nanico, pintura que inclui faixas pela lataria e um abecedário variável após o nome do modelo – GTX, GTS, GT, XR, XPTO... Tirando a maquilagem, o que se encontra ‚ exatamente o mesmo modelo “normal”, já que motor, caixa de marchas, suspensão etc são exatamente os mesmos do restante da linha.
Antes que alguém reclame, o colunista não acordou de mau humor e resolveu desancar o carro que muitos têm na garagem. Afinal, gosto não se discute e, se o comprador não tiver comprado gato por lebre – ou seja, tiver torrado as economias num carro de performance esportiva comprando, na verdade, um carro comum –, não há nada de errado em ter um carango com visual, hum, diferente da maioria. Além disso, além dos "itens esportivos", essas versões costumam trazer equipamentos interessantes, como conta-giros, bancos com melhor ergonomia e sistemas de som caprichados por preços bem atraentes.
HÁ exceções, como o Citroen Xsara VTS, que a exemplo de seu antecessor, o ZX 16v, tem realmente um desempenho eletrizante (como você pôde verificar recentemente aqui em nosso caderno). O engraçado ‚ que esses carros têm pouquíssimos detalhes externos que os diferenciem das outras versões da linha.
Muito pior do que um carro que aparenta ser o que não é, é outro, que se torna completamente diferente (geralmente para pior) pouco tempo depois. O caso típico é aquele usado reluzente, comprado de um vendedor simpático. Sai da loja rodando macio e com cheiro de cera. Em poucos meses, começam a aparecer marcas na lataria, o motor começa a engasgar, uma fumacinha branca se manifesta pelo escapamento, as marchas vão ficando difíceis de engatar... Tal qual certas bebidas de origem duvidosa, um carrinho assim dá mais ressaca que alegria.

A PROPAGANDA É A ALMA DO NEGÓCIO
A máxima acima, criada, é claro, por um publicitário, se encaixa nos automóveis como em poucos outros produtos. E não só nos carros propriamente ditos, mas, principalmente, em todos os produtos a eles relacionados. Afinal, como despertar o desejo de consumo de uma determinada marca de óleo nos consumidores sem usar muita criatividade?
Ao contrário de um esclarecido e metódico motorista ideal – que escolheria seu lubrificante a partir de uma análise esclarecida e cuidadosa das especificações e preços das diferentes marcas disponíveis –, a maioria absoluta das pessoas normais se decide por uma lata com um nome atraente, colocada em um local bem visível do posto, e nada mais.
O caminho mais eficaz para vender parece ser o do inusitado: coisas que chamem a atenção dos motoristas por serem diferentes e curiosas. Por isso tome feras no carro – alguém aí se lembra do tigrão da Esso, rugindo dentro do motor? –, amortecedor transformado em cachorrinho bassê – como na memorável campanha da Cofap – e Romi Iseta ultrapassando Ferrari – como chegaram a mostrar em um comercial de gasolina premium na TV.
Com os pneus não poderia ser diferente. Recentemente, a Goodyear fez uma analogia com garras de pantera para ressaltar a aderência de seus produtos. Historicamente, seus concorrentes sempre apostaram na publicidade criativa para cativar os motoristas. O exemplo mais famoso disso é o rechonchudo Bibendum, personagem criado pela Michelin há 100 anos. O boneco atravessou o século em campanhas publicitárias dos mais variados estilos e, ainda hoje, é o carro-chefe da imagem do maior fabricante de pneus do mundo. Bonachão e risonho, ele dificilmente seria associado a pneu por, digamos, um alienígena que chegasse hoje à Terra. Mas, principalmente na Europa, é tão popular quanto os personagens de Disney e angaria simpatia para a marca até dos que não dão a mínima para os automóveis.

HIPOCONDRIA MECÂNICA
Você certamente já perdeu a conta de quantas reportagens e crônicas – esse mesmo escriba já falou sobre o assunto aqui, mais de uma vez – já leu tratando da importância de uma boa e constante manutenção para os automóveis. Mas se é verdade que a falta de atenção e cuidado é responsável pela imensa maioria dos enguiços e quebras, é também inegável que excesso de zelo pode ser muito prejudicial à saúde do carro. Mexer demais em regulagens, antecipar demais a substituição de peças e componentes, não só não ajuda em nada como também pode atrapalhar e muito.
Não, caro leitor, o cronista não está com parafusos precisando de aperto. Há muita gente por aí – talvez por falta de algo melhor ou mais interessante para fazer – que adora fuçar problemas onde eles não existem e, suprema e prazerosa glória, gastar uma boa graninha todas as vezes nas quais – por exemplo – pára num posto de gasolina. É aquele camarada que acha que o filtro de ar estraga sempre que chove, que o filtro de combustível tem de ser substituído a cada dois tanques consumidos, que os pneus devem ser calibrados três vezes por semana, que o óleo deve ser trocado – mesmo que rode apenas em caminhos bem asfaltados – a cada mil quilômetros e, pasmem (essa eu ouvi num posto, juro!!!): que os fusíveis e lâmpadas devem ser trocados uma vez por ano, antes que se queimem.
E tome estragar parafusos de tanto apertar e desapertar, encurtar a vida útil da pintura de tanto passar cera polidora, destruir válvulas dos pneus de tanto enfiar o calibrador e ressecar mangueiras e outros componentes e buchas com óleo de mamona ou outro “cosmético” preventivo.
Esses motoristas, espécies de hipocondríacos que transferem sua “neura” para os carros, fazem a alegria dos mecânicos – dos quais acabam se tornando íntimos. O único acessório do carro no qual eles parecem não mexer nunca ‚ o manual do proprietário.

GAROAS, CHUVAS E TEMPESTADES
"Não há sábado sem sol, não há domingo sem missa, nem segunda-feira sem preguiça", dizia um velho guia pantaneiro de Poconé acrescentando, em seguida: "Mas não há verão sem chuva, muita chuva". Sim, leitor, era sábado e caía um tremendo pé d`água na rodovia Transpantaneira. Não é preciso ter a sabedoria de quem contempla a chuva há 40 anos ou a alma poética de um quase personagem de Guimarães Rosa para concordar com ele.
Delírios pseudoliterários de um colunista (que, como muitos, é escritor frustrado) à parte, quem mora num lugar como o Rio de Janeiro – que costuma ter suas ruas transformadas em rios, em dezembro, janeiro, fevereiro... –, sabe que a estação é para lá de úmida. Por isso, toma as devidas precauções, trocando as palhetas do limpador de pára-brisa, colocando uma flanela limpa e macia no porta-luvas e, por via das dúvidas, “malocando” um providencial guarda-chuva no porta-malas”.
Mesmo assim, há efeitos colaterais da chuva dos quais não podemos fugir. Ainda que se dirija com todos os vidros fechados, o simples ato de abrir e fechar a porta do carro para que alguém entre ou salte, faz com que alguma água caia sobre bancos, tapetes etc. Pior ainda quando o possante não possui um sistema de ventilação suficiente para desembaçar o pára-brisa por dentro e, por isso, o motorista ‚ obrigado a dirigir com o quebra-vento aberto (nos modelos mais antigos) ou com aquela chatíssima frestinha no topo do vidro.
Se o carro ficar fechado depois de um dia rodando nessas condições, certamente irá brindar motorista com um cheirinho para lá de desagradável na manhã seguinte. Por isso, logo que possível, tire os tapetes de borracha e deixe o carro com os vidros abertos para que seque. Um daqueles purificadores de ar que se usa em guarda-roupa – já há uma linha automotiva desses produtos – também é muito útil para evitar o cheiro de mofo. Quem tiver tempo e disposição, pode usar um secador de cabelo nos tapetes e estofado, logo que chegar à garagem, evitando maiores aborrecimentos.

CARRO ALEGÓRICO
Tem gente que nunca está satisfeita com os recursos de seu automóvel. Por mais que tenha comprado um modelo todo equipado, com todos os opcionais disponíveis, sempre encontra alguma coisinha diferente para comprar e instalar no carro. A criatividade desses consumistas compulsivos ‚ enorme. Quase tão grande quanto a dos fabricantes desses acessórios, que sempre inventam algo totalmente inusitado e “imprescindível”.
O carro de Betão ‚ assim. Tem som incrementado, com um sistema de luzes que piscam no ritmo da música; almofadas pirotécnicas (à prova de fogo, segundo o manual das ditas cujas) em padrão oncinha no banco de trás, “spoilers” e aerofólios por todos os lados – o que ‚ curioso num carrinho de 1.000 cc como o dele –, buzina de cinco cornetas em escala e mais uma infinidade de “gadjets” que não caberiam nestas linhas. Mas que, sabe-se lá como, cabem no carro dele.
Na rua onde mora, é conhecido como Betão 011 1406 – numa referência ao serviço de televendas da televisão do qual ‚ freguês fanático. Tantos são os equipamentos em seu carrinho que, além do motorista e do carona, mal entram a sogra ou o sobrinho flamenguista (ele é vascaíno doente). No porta-malas, pouco espaço sobra entre o gigantesco alto-falante que faz tremer o quarteirão – alguém aí pode me explicar como se consegue dirigir com aquele megabaticum nas idéias? – o macaco especial para 18 toneladas, o compressor para encher pneus e o super estojo com 425 ferramentas “made in Taiwan”.
Com tudo isso, claro, o consumo de combustível é mais alto que o normal e a suspensão do carrinho anda meio arriada. Mas o pior aconteceu semana passada, quando, além do som e das luzes, Betão resolveu ligar sua máquina de café expresso, o ionizador de ambiente, o barbeador elétrico e o telefone celular na tomada do acendedor de cigarros. O painel de fusíveis chiou e começou a fazer uma tremenda fumaceira. Extintor de incêndio descarregado, ânimos serenados, carro rebocado para a oficina. Telefone em punho, ele agora está procurando um extintor automático com detector de fumaça para colocar no carrinho.


QUESTÃO DE GOSTO E DE SORTE

Armando gostava de, digamos assim, certas proeminências existentes na retaguarda do corpo das moças bem fornidas – o acanhamento da descrição aí está para combinar com o jeitão, tímido e envergonhado, do artista em questão. Por esses azares da vida, nosso herói sempre teve a seu lado moças que reuniam dezenas de outros predicados, mas não “esse”.
Fetiche, mania, preferência, tara... Fosse lá o que fosse, já estava se transformando em uma tremenda frustração. Tão grande que acabava por minar qualquer chance de seus relacionamentos darem certo. Além desse, Armando tinha outra grande frustração na vida: andar a pé. Já havia tentado tirar carteira seis vezes. Era sempre reprovado, logo nos primeiros instantes da prova prática – na teórica, passava sem erros. Tão grande era a sua falta de coordenação e de reflexos, que chegou a destruir dois carros da auto-escola.
A sorte de nosso amigo mudou no dia em que foi atropelado por Silvinha. Calma, querido leitor! O cronista já curou sua ressaca momesca e não está matando seu personagem por causa de alguma enxaqueca cívica. O caso aconteceu no estacionamento de um supermercado e Armando sobreviveu a ele sem arranhões – a moça saía de uma vaga com seu carro, um desses modelos de três volumes e traseira alta, que dificulta a visão do motorista em certos ângulos, e não percebeu que o rapaz passava por ali.
Armando se empolgou com Silvinha quando ela, entre preocupada e carinhosa, veio ajudá-lo a se levantar do chão e catar suas compras esparramadas. E se chegou a ficar um pouco decepcionado na primeira vez que a moça lhe deu as costas ("ainda não foi dessa vez!", pensou aborrecido), adorou quando ela lhe ofereceu carona até em casa e, na despedida, convidou-o para pegar um cineminha.
A amizade engatou uma segunda e virou romance. Resignado e quase feliz, nosso personagem filosofou com seus botões: "Se ela não tem o “derrière” dos meus sonhos, pelo menos, o carro dela tem".
Moral da história: a preferência dos brasileiros pelos carros com “bundinha” vai muito além do puro design.


Um dia, uma Kombi (2.4.1999)
Tadao ‚ um senhor japonês nos seus sessenta e poucos anos, simpático, sorridente e generoso. Todos os dias, faz o mesmo percurso, de sua casa até a pequena quitanda da família, coisa de três quilômetros, na velha Kombi 63 verde água malhada de pintas de massa cinza. Como todos no bairro o conhecem de longa data, raro é o dia em que o verdureiro não pára no caminho para dar carona aos vizinhos.
Por isso mesmo, outro dia, logo na esquina da rua onde mora, Tadao parou e ofereceu condução a duas senhoras de idade (eufemismo respeitoso para velhinhas, muito velhinhas), que iam na mesma direção. Não andou 50 metros e foi parado por Seu Humberto e seu filho, Joãozinho, atrasado para o colégio - que ficava praticamente ao lado da Casa do Sol Nascente, local de labuta do motorista. A esta altura, o papo dentro do carro já rolava animado. Dona Clotildes servia um pouco da limonada que levava em uma garrafa térmica para seu filho, Fernando, professor na faculdade do bairro e para quem a zelosa senhora levava o lanche todas as manhãs.
Nova esquina, nova parada. Desta vez embarcaram Dario, Marconi e João, três cearenses que faziam biscates e obras na vizinhança. Traziam com eles ferramentas e também as marmitas. Não haviam se acomodado ainda quando a Kombi brecou novamente e, portas abertas, deixou entrar o padre Voguel, um velho, rosado e rechonchudo alemão, fanático por Fuscas e cerveja. Com ele embarcaram seu sacristão, o recatado Luís Artur, e o tocador de sino da igreja, o espevitado Rogério, que trazia uma galinha viva enrolada num jornal.
A coisa já começava a ficar meio, digamos, íntima demais entre os divertidos passageiros quando, a menos de 500 metros do ponto final, nosso bondoso Tadao resolveu dar mais uma paradinha, para oferecer transporte à família Fonseca da Rocha - leia-se o padeiro, a mulher e os três filhos, estes últimos carinhosamente apelidados no bairro de trio DDD.
Quando a Kombi finalmente parou em frente à mercearia, e Urubu, o balconista, resolveu ajudar a turma abrindo as portas laterais do carro, aconteceu algo que o bairro inteiro comenta até hoje: cuspidos para fora, como champanhe nacional em noite de rèveillon, todos os passageiros saíram rolando pela calçada. Felizmente, ninguém se feriu e a Kombi, acreditem, já estava a postos para o caminho de volta.
Nota do colunista: se você acha que já assistiu a essa cena em algum filme, está certo. Ela, passada em um camarote de navio, faz parte do antológico Uma noite na ópera, com os Irmãos Marx, de 1935. Um pouquinho mais antigo do que o projeto da Kombi.

O PERIGO VEM A REBOQUE (8.4.1999)
É provável que você já tenha notado a novidade em muitos carros na cidade. Principalmente nos táxis de algumas cooperativas. São aqueles engates, do tipo pino-bola, instalados na parte de tr s dos carros. Uma pesquisa sumária mostraria que 99% dos motoristas desses automóveis não possuem reboques de nenhum tipo e nem pretendem rebocar nada. Então, perguntaria o leitor intrigado, para que colocar esse acessório?
No papo de botequim descobrimos que esses motoristas mandam instalar o engate para proteger os pára-choques do carro de outros colegas, barbeiros, seja nos estacionamentos ou no trânsito. A proeminência metálica serviria também para intimidar motoristas mais agressivos, desses que gostam de andar colados à traseira do carro que vai à frente.
Na prática, porém, esses "ganchões" trazem muito mais perigo do que proteção. Além de serem uma armadilha nefasta para os pedestres – quem atravessa a rua e ‚ obrigado a passar entre dois carros, dificilmente consegue enxergar o engate e, geralmente, leva dele uma lembrança em forma de ferida na canela –, eles prejudicam a segurança do veículo.
Os engenheiros gastam milhares de horas de trabalho estudando a resistência de materiais e sua deformação diante de colisões diversas, projetam pára-choques e latarias para absorverem os impactos e preservarem a integridade dos ocupantes dos carros. O engate, geralmente preso as longarinas que dão estrutura ao monobloco do carro, eliminam toda essa zona de deformação e, no caso de uma batida, transmitem integralmente toda a energia da colisão para a parte rígida da carroceria. Trocando em miúdos, o que poderia ser apenas uma traseira amassada, um caso para um bom lanterneiro, pode passar a ser um caso para um bom ortopedista. Isso sem falar que toda a estrutura do carro, quando recebe o impacto da batida, pode empenar, tornando o conserto do estrago caríssimo ou até inviável.


Um carro para a família (15.4.99)
Ângelo, pela primeira vez na vida, dera sorte nos negócios. Comprara R$ 50 mil em equipamentos importados, cotados em moeda americana e pagos à vista e, dois dias depois, o dólar fora às alturas. Vendera todos os equipamentos em menos de duas semanas – eram fundamentais para a manutenção de equipamentos de uma “graaaaande” empresa –, pagara o empréstimo ao sogro e, agora, tinha no bolso uma bolada com a qual nunca havia sonhado. Pensou: "Vou comprar um carro zero!". Pegou a relação dos modelos à venda, aqui no Caderno de Automóveis, e foi consultar a família.
Marizilda, sua patroa, que nem carteira tinha, toda animada pediu: "Ah, bem, compra uma dessas caminhonetes, que têm bastante espaço para bagagem, compra!". Ângelo pensou na felicidade da mulher, saindo de um shopping com o carro lotado de embrulhos e sorriu. O sorriso, no entanto, deu lugar a um ar desanimado quando começaram a flutuar por sua mente dezenas de faturas de cartões de crédito em ameaçadora revoada.
Rodrigo, o filho mais velho, que já estava tendo aulas na auto-escola, tirou o pai do transe com um pedido exótico: "Compra um jipão com tração nas quatro rodas! Aí a gente não vai mais ter que se preocupar com enchentes, buracos, motoristas molengas..." Ângelo já imaginava o filho passando por cima do fusca de uma pobre velhinha quando Soninha, a filha do meio, fritou: "Nada disso! Vamos comprar um carrão importado alemão, que é para humilhar a galera quando você for me buscar nas festas!
Uma careta indisfarçável no rosto do pai fez a adolescente deixar a sala em prantos. Foi quando Júnior, o mais novo, puxou o braço do pai e falou baixinho: "Compra um carrinho mais barato, de quatro portas e com ar-condicionado. O resto da grana a gente gasta com outras coisas, um computador, férias na Bahia, uma TV de 49 polegadas..."
Ângelo acaba de comprar uma pequena caminhonete de mil cilindradas – uma das duas que estão em nossa capa hoje. Fez uma concessão à Marizilda, que prometeu pegar leve nos cartões. Estão de viagem marcada para Miami, em maio. Todos felizes. Principalmente Júnior, que ganhou, sem pedir, um aumento de mesada.

CHEIRINHO DE NOVO (22.4.99)
Ariovaldo convidou seu melhor amigo, Nélson, para conhecer o carro novo. Vermelho, rodas de liga leve, faróis de neblina... Valdo – esse é o apelido de nosso amigo, que é filho de um Ary e neto de um Osvaldo – foi mostrando o carango para o amigão por fora, detalhe por detalhe.
Dez longos minutos depois, porta aberta, a dupla se acomodou. Os bancos ainda forrados com plástico e aquele cheirinho de carro novo. Nélson se virou para colocar o cinto de segurança, mas foi interrompido pelo amigo: "Calma, ainda não te mostrei uns detalhes!". E tocou a explicar o hodômetro digital, a memória do rádio e exibir, com orgulho, a luz dentro do porta-luvas. Nélson já começava a cochilar quando, finalmente, Valdo girou a chave e fez o motor funcionar. O bichinho zumbia feliz, com aquele ruído metálico das peças que ainda estão ganhando intimidade entre si. "Olha aqui, Nélson. Tem conta-giros pra controlar o segundo comando", pavoneou o orgulhoso. "Mas não ‚ um carro mil?", perguntou o sonolento amigo.
Valdo sorriu irônico, desligou o carro e, abrindo o capô, chamou o amigo para ver o motor. "É com 16 válvulas", disse com a boca cheia. "Olha aqui o cabeçote, com dois comandos". E explicou, demoradamente, como funcionava a coisa.
Voltaram para dentro, carro ligado, primeira engatada, a aula continuava: "Quando eu preciso de mais torque, estico até 3.000 giros e o motor enche assim", disse Valdo, para em seguida cravar o pé no freio e fazer o carrinho brecar a poucos centímetros do pára-choque de outro veículo. Engrenou a primeira e saiu quente. As demonstrações foram se multiplicando, com cantadas de pneus e freadas por mais uma hora. Até que o já impaciente Nélson resolveu se manifestar: "O Valdo, não era melhor a gente sair da garagem e usar o carro na rua?


A evolução em quatro rodas (06.05.1999)
Se na natureza nada se cria, tudo se transforma (ou se copia, segundo o saudoso Chacrinha), na indústria automobilística a coisa é bem parecida. Ficaria igual se incorporássemos à máxima de Lavousier – o autor da primeira frase – a teoria da evolução das espécies de Darwin. É que se compararmos com um mínimo de profundidade os automóveis de hoje com os do começo do século, iremos encontrar semelhanças em número muito maior do que o das diferenças. O princípio de tudo, o motor a explosão de quatro tempos, por exemplo, é basicamente o mesmo.
Se não levarmos em consideração as suas primeiras versões, o Gol é um bom exemplo do que o colunista quer dizer. Isso porque os primeiros Gol, como motores 1.3 e 1.6 refrigerados a ar – sim, os mesmos usados no Fusca, Brasília e cia – eram coisas realmente estranhas. A montadora, preocupada em transferir a imagem de resistência e confiabilidade da marca para o novo carrinho, tascou-lhe o motor da linha “panzer” (explico a brincadeira: esse era o nome dos indestrutíveis tanques germânicos da Segunda Guerra) que, além de tudo, era mais barato. O resultado não foi dos melhores, com consumo e nível de ruídos altos e, no caso dos 1.3, um desempenho ainda pior que o do besouro – àquela altura, já um ancião de 50 anos.
Depois de receber a mecânica do Passat nacional, refrigerada a água, que fez o carro finalmente decolar nas vendas, as mudanças passaram a ser quase todas estéticas. Tanto que nessa nova (e, pelo que dizem, derradeira) versão, o artilheiro da VW ainda guarda inúmeras semelhanças com aquele caixotinho modelo 1986. Tirando a cara de Santana 99 – outro modelo reciclado à exaustão –, o novo Gol mantém o mesmo conceito das versões anteriores, com motor (praticamente o mesmo em várias de suas versões, longitudinal), suspensão e até mesmo posição de dirigir idênticos.

OS LIMITES DA IDADE
Lorival é uma das figuras mais populares do bairro. É ele quem sempre se fantasia de Papai Noel no Natal e organiza o Bloco da Trapaça – que sai há mais de 40 anos. Aposentado há mais de dez anos, pinta sozinho sua casa todos os anos e conserta eletrodomésticos.
Motorista orgulhoso, Lorival tem 56 anos de carteira sem acidentes. Mais do que isso, nunca foi multado justamente – isso porque, há dois anos, recebeu pelo correio uma multa por estacionamento proibido no Leblon, bairro que não visita desde 1965. Sem muitos compromissos, nosso experiente amigo limita suas saídas de carro aos fins de semana, quando vai ao Maracanã ou visita os netos na Tijuca. Só por precaução, não costuma dirigir à noite. "É preciso reconhecer os seus próprios limites", diz aos amigos.
Procópio, um desses amigos, não seguiu o conselho e acabou ganhando um terno de gesso. Sonolento, voltava para casa de madrugada e furou um sinal. Fora a clavícula e o Uno Mille, o que mais ficou ferido foi o orgulho. "Pôxa!", muxoxeou o engessado a Lourival, "Meu pai não vai me emprestar o carro por uns dez anos!". Sim, leitor, Procópio tem 22 anos e nem sequer usa óculos. Agora, para ir aos jogos do Botafogo, vai precisar pegar carona com o Lorival.

(20.05.99)
UM POR TODOS, QUATRO POR QUATRO
Dario é um workaholic (maníaco por trabalho), daqueles que moram no escritório e ainda abrem uma filial da empresa em casa. Para contrabalançar, nos fins de semana ele gosta de sair da cidade atrás de aventura. Pensando assim, formou um grupo de "exploradores" com mais três antigos colegas de faculdade, dois deles já com jipes na garagem.
Logo depois dos estatutos, brindes com cerveja e até a tentativa de criar uma logomarca – Dario, Marcello e Zezinho queriam que fosse um cachorro são Bernardo de óculos ray-ban, que foi vetado por Luís, dono de um Niva, que odeia cães –, partiram para a escolha do carro que Dario iria comprar. Helena, a mulher de Dario, que até aquele momento tinha se limitado a escutar o papo da turma, resolveu opinar: "Vocês bem que poderiam comprar um (Suzuki) Vitara. É tão fofinho!" Dario olhou para o teto com enfado, Marcello, que é dono de um arisco Samurai, coçou a barba rala e Luís fez sua famosa cara de tédio. Coube a Zezinho, que nem carteira de motorista tem, definir o pensamento geral: "Queremos um jipe para homem", resumiu preconceituosamente.
Helena não se abalou. "Não se esqueçam que nós vamos usar o jipe também como nosso carro de todos os dias. Não pode ser uma porcaria dura e sem espaço", decretou com conhecimento de causa. E saiu, cheia de moral, para a sala de TV. Dario foi obrigado a concordar com a patroa. "Vai ter de ser um “sport utility”", resignou-se com uma pronúncia irretocável. Afinal, que outro tipo de fora-de-estrada poderia zanzar macio pelas ruas durante a semana e depois cair na lama sem medo no sábado pela manhã?
Revistas especializadas e classificados de jornal na mão, os quatro pelejaram entre os diversos modelos, novos e usados, disponíveis. Chegaram a uma lista com meia-dúzia de opções – entre os quais o simpático, mas um tanto caro Rav que está em nossa capa de hoje. A reunião foi adiada para a semana seguinte – já passava das duas da manhã quando Helena resolveu lembrar ao marido que, no dia seguinte, eles tinham um batizado para ir, bem cedo, na Penha...


Cinto de sobrevivência

Usar cinto de segurança já foi motivo para vergonha ou, no mínimo, desconfiança. Quando este colunista começou a dirigir, nos idos de 1980, praticamente ninguém tinha esse hábito. Nas aulas da auto-escola, o instrutor ensinava: "Na hora da prova, lembre-se de colocar o cinto". Na hora H, no entanto, grande decepção. O (então) jovem aqui entrou, nervosíssimo no fusca, onde já o esperavam três(!) examinadores com cara de pouquíssimos amigos. Sentou-se, fechou a porta, ajustou o banco, os espelhos – os funcionários do Detran tinham o hábito de deixar tudo fora do lugar, para ver se o candidato a motorista havia decorado todas as instruções –, colocou o câmbio em ponto morto (estava em ré!!!) e, como havia aprendido com o paciente instrutor, se virou e pegou o cinto para colocá-lo. Um dos examinadores do banco de trás segurou sua mão e disse: "Tudo bem, você já se lembrou que tem de pegar o cinto. Pode deixá-lo aí mesmo".
A carteira saiu semanas depois e o cinto, apesar do mau exemplo, acabou sendo adotado como obrigatório, em todas as situações. Questão de costume, era entrar no carro e colocá-lo. Caso contrário, dava – e dá até hoje – uma sensação estranha, como se estivesse faltando uma peça básica da roupa.
Na época da faculdade, o fuscão branco deste escriba era os poucos meios de transporte disponíveis. Algumas vezes, certos colegas reclamavam do que achavam ser excesso de zelo: "Pô, até parece que vamos viajar de Ferrari!" Vieram os filhos e o cuidado só aumentou, com cadeirinhas seguras, sempre no banco de três. O mais velho, de quatro anos, de tão acostumado, reclama quando demoram a colocar seu cinto.
Durante todo esse tempo, a coleção de argumentos para usar o cinto de segurança só cresceu. O irmão do colunista foi protegido pelo "amigo do peito" em uma pequena batida, uma amiga saiu ilesa de um Fiat 147 que foi abalroado, violentamente, por um carro blindado porque estava devidamente amarrada ao banco e o próprio teclador destas mal traçadas linhas saiu sem um arranhão de uma capotagem, graças ao acessório. Por outro lado, amigos já se machucaram seriamente por não usarem o dito cujo e alguns teimosos conhecidos, a esta altura, devem estar discutindo o assunto com figuras ilustres como John Lennon e Tom Jobim.


(Artigo para o jornal, em maio de 1999)
CORRER MENOS, MORRER MENOS
A velocidade não costuma ser a causa da maioria dos acidentes de trânsito. Mas ‚ certamente o principal motivo para termos tantas mortes nesses acidentes. Em outras palavras: também se bate com o carro andando devagar, mas as conseqüências são bem menos graves. Casos como o do estudante Paul são, infelizmente, muito comuns. Deslumbrado com a liberdade e a independência que um carro proporciona (nada mais de ônibus ou caronas! Nunca mais pagar o mico de ser trazido ou buscado pelos pais nas festas!), o novíssimo motorista muitas vezes transfere para o volante toda a sua necessidade de afirmação, ímpeto e destemor. Por isso mesmo, quanto mais possante o automóvel, nesse caso, maior o perigo que ele pode representar.
O raciocínio ‚ simples; a solução mais ainda. Em lugar de colocar caros e possantes carrões nas mãos dos filhos, assim que eles tiram carteira, ‚ melhor fazer com que comecem a dirigir modelos mais lentos. HÁ excelentes opções no mercado – o Palio 1.0, por exemplo, incorpora os mais modernos conceitos de segurança e tem preços a partir de atraentes R‰ 11,8 mil, custo semelhante ao das versões 1.0 do Gol, Corsa, Fiesta e Ka. Todos ótimos pontos de partida para uma longa carreira de motorista. Henrique Koifman, subeditor do Caderno D e colunista do Caderno de Automóveis do DIA.


Para dirigir tranqüilo
(03.06.99)
Acidentes fatais no trânsito, como os que aconteceram na semana passada, sempre provocam polêmica e reflexão. Ser que, ao tirar carteira, um jovem está realmente pronto para dirigir? Quais são os carros mais seguros e quais os mais perigosos? Essas e outras tantas perguntas estão em toda a parte esta semana, das páginas dos jornais aos bate-papos nas esquinas. Bom pretexto para falarmos sobre segurança.
Dirigir com segurança é, antes de tudo, questão de postura. Pode parecer coisa de instrutor Caxias de alguma auto-escola à moda antiga, mas é bem mais que isso. Sentar-se no banco do motorista de um carro tem lá a sua ciência. Encontrar uma posição que permita, ao mesmo tempo, dirigir com conforto e ter total controle do carro é o grande segredo. Pensemos juntos: para conduzir um carro sem sustos ou riscos desnecessários, é preciso ter o maior campo de visão possível – e isso inclui espelhos bem regulados, janelas sem adesivos e com vidros limpos e nenhum objeto atrapalhando o motorista.
Antes de sair, nunca é demais conferir se as portas estão todas fechadas corretamente – ter de fechar uma porta com o carro em movimento é uma operação que beira o malabarismo e a qual não recomendamos fora de um picadeiro e sem um belo nariz postiço vermelho devidamente atarraxado no rosto. Aproveite para conferir os espelhos. Eles servem para multiplicar a visão, tornando nossas reações mais rápidas e precisas. A melhor escola para se aprender a usá-los ‚ a motocicleta, sobre a qual o piloto depende do controle total dos outros veículos para a sua própria sobrevivência – e na frase não vai quase nenhum exagero, palavra de ex-motociclista.
Para encerrar, enquanto estiver dirigindo, fuja de aborrecimentos. Nada de discussões com outras pessoas – se for necessário, estacione, brigue com a namorada, faça as pazes e, só então, siga em frente. O estado de espírito, ao lado da concentração, é fundamental para evitar acidentes. Tanto que, nos Estados unidos, as pessoas costumam se despedir da outras nas festas com um carinhoso "drive safe" – que quer


CARROS (MUITO) USADOS
(10.06.1999)
Um colega aqui da redação me procurou pedindo ajuda numa tarefa difícil: quer comprar um carro usado barato e, depois de uma pesquisa rápida, chegou à conclusão de que sua melhor opção seria um fusca do final dos anos 60. O que ele queria do colunista eram dicas para saber diferenciar uma boa compra de uma dor de cabeça com quatro rodas.
Antes de mais nada, é preciso explicar: um carro com 30 anos de uso, salvo peças de coleção reformadas e/ou tratadas a pão-de-ló (olha aí uma expressão tão antiga quanto o carrinho em questão), é sempre uma m quina que sofreu muito desgaste. Por mais que seja comum dizer que os modelos antigos eram construídos para durarem "para sempre", na prática, qualquer modelo com mais de 10 anos de uso constante precisa, no mínimo, de uma série de ajustes e substituições de peças.
Por outro lado, as peças para os carros mais antigos costumam ser raras – principalmente as de acabamento, como detalhes de painel e lataria – e não é qualquer mecânico que sabe lidar com eles. Junte a isso o fato dos tais modelos, por terem projetos antigos, serem menos seguros e mais beberrões de combustível do que os atuais, e você ter um verdadeiro coquetel de contra-indicações. Por essas e por outras, o mais recomendável é, se possível, optar por um modelo mais recente.
É claro que, se o caso for uma paixão irracional – como carro igualzinho ao que seu pai tinha quando você era criança, um antigo sonho ou algo incontrolável mas não patológico –, a história é diferente. E se for para ser o segundo carro, um hobby, poucas coisas podem ser mais divertidas. A vantagem dos fusquinhas dos 60 é que, além de terem uma mecânica muito simples e barata, por ainda rodarem por aí em grande quantidade, suas peças costumam ser mais fáceis de encontrar, principalmente em cidades do interior. É perfeitamente possível comprar um deles “caidinho” – o ideal é que sua estrutura (chassis e base da carroceria) esteja em bom estado – e deixá-lo inteirão depois de alguns meses de trabalho cuidadoso.

TUDO PARA SER DIFERENTE (17.06.1999)
Os leitores mais assíduos desta coluninha devem se lembrar do Betão 011-1406, um automaníaco viciado em comprar equipamentos para seu carro através daqueles números de telefone que aparecem na TV. De produtos que prometem tornar a pintura do carro a prova de fogo àquelas bolinhas de madeira que alguns aprendizes de faquir costumam colocar no encosto do banco, Betão compra de tudo. A tal ponto que seu carro teve um princípio de incêndio pelo excesso de equipamentos elétricos (cafeteira, purificador de ar, ventilador, luz auxiliar, barbeador e isqueiro) ligados simultaneamente na tomada do acendedor de cigarros.
O que o colunista não contou, por falta de espaço, naquela vez, é que Betão tem um primo com uma mania parecida com a sua. Andrezinho – o primo – faz questão de "ser notado na paisagem" – como ele mesmo costuma dizer. E aí vale tudo. Suas roupas têm cores berrantes, estampas daquelas que os americanos só usam quando “estão” turistas, e ele fala num tom que faz tremer os copos de cristal da tia Clotilde (a mãe de Betão) dentro da cristaleira, todas as vezes que vai visitar os primos.
O estilo de Andrezinho, é claro, se manifesta no Chevetão 80, roxo "deep-purple", que ele costuma pilotar satisfeito por aí. Mas, diferente do primo, esse extravagante personagem prefere incrementar o carango com suas próprias criações. Os pára-choques, por exemplo, ele pintou de branco e depois, com uma fita isolante preta, deixou "zebrados". Na tampa da mala, pintou um brasão que, afirma, é o dos ancestrais de sua família – algo como um bode dentuço segurando uma espada verde. Nos vidros, colocou tantos plásticos e adesivos, que as janelas da parte de trás do Chevete ficaram parecendo as páginas dos classificados das próximas páginas de nosso suplemento. Nos faróis, aplicou lentes esverdeadas. Nas luzes de seta, lentes vermelhas. Na saída da descarga, encaixou um apito que roubou do diretor de harmonia do bloco do bairro.
Como resultado de tanta criatividade, Andrezinho teve seu carro rebocado, ontem à tarde, da porta da casa de sua namorada, em Copacabana. Ele ainda tentou conversar com o guarda, mas a lista de coisas erradas ou proibidas era tão grande, que o homem da lei ficou sem voz lá pela metade.

Clima de montanha (24.06.1999)
Pedro trabalhou duro, fez quase um ano de horas-extras, vendeu um terreno em Maricá que herdara do tio, cancelou a TV a cabo e deu o carango antigo como parte da entrada para poder levar para casa um carrinho novo. Mesmo com todo o esforço – e as prestações que pagar pelos próximos anos – só deu para comprar um "popular", bem simples. Na hora de “chorar” um desconto com o vendedor, o único acessório que não entrou em discussão foi o ar-condicionado. O clima de montanha em plena Avenida Brasil do alto verão carioca fora justamente o sonho que, ano e tanto antes, fizera com que Pedro decidisse "pegar ainda mais pesado no pesado" – como ele dizia – para comprar o carro.
O verão acabou, as temperaturas eram amenas e nosso amigo até se esqueceu de que havia ar-condicionado no carro. Só foi lembrar do recurso l pelo meio da primavera, quando resolveu levar Lucinha, sua nova namorada, para um passeio à Prainha. A moça comentou o calor daquela tarde de outubro, ele sorriu maroto, fechou um a um os vidros e acionou satisfeito o ”botão mágico”.
Um bafo quente brotou das saídas de ar e, instantes depois, o carrinho já estava se transformando em uma verdadeira sauna sobre rodas. Constrangido, Pedro desligou e tornou a ligar o acessório. Desta vez, ouviu um longo chiado. E nada dos ventos amenos. Pingando de suor – e espumando de raiva –, nosso amigo encostou o carro em um posto de gasolina, sacou o manual do porta-luvas e, diante de uma Lucinha já sem muito humor, começou a procurar a parte que falava do ar-condicionado. L pelo final do capítulo, em letras vermelhas, estava escrito: "Coloque o climatizador para funcionar, pelo menos, uma vez por semana, durante dez minutos, mesmo nos dias de inverno. Caso contrário, o sistema pode ressecar, o gás refrigerante vazar e adeus friozinho".
Agora, Pedro e Lucinha deixam cada um seu casaco guardado no carro e, uma vez por semana, brincam de "Sibéria" no outono carioca a caminho do cinema. Sauna motorizada, nunca mais.
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terça-feira, 12 de junho de 2007

Os pneus e a segurança

(Publicado originalmente em 21 de julho de 2005)

O automóvel é uma máquina relativamente simples e, em conceito, não evoluiu tanto – quanto, por exemplo, o computador – nos últimos 100 anos. Como, leitor? Não havia computadores há 100 anos? Vamos então considerar seus antepassados diretos, as primeiras máquinas mecânicas de calcular ou o ábaco. Entre um ábaco e um “notebook” de última geração, certamente, há muito mais diferenças do que entre um carrinho de 1905 e um outro, de hoje. No que diz respeito ao desenvolvimento de seus componentes e acessórios, porém, a evolução é muito grande. E entre as coisas que mais evoluíram nos automóveis estão os pneus.

A invenção dos pneus é anterior a dos carros, Eles já eram utilizados, por exemplo, em bicicletas. E sua primeira grande evolução foi introduzida pelo escocês, John Boyd Dunlop, que, para fazer com que a bicicleta de seu filho ficasse mais confortável, encheu os pneus de ar. Os automóveis, no entanto, só receberiam pneumáticos na última década do século XIX, fabricados inicialmente pelo francês Eduard Michelin.

De lá para cá, tanto em termos de materiais quanto de projeto em si, os pneus evoluíram bastante. Banda de rodagem, montagem e desmontagem (trocar pneu de calhambeque era complicadérrimo), reforços estruturais de lona e, mais tarde, de aço, compostos de borracha natural e sintética e eficiência em diversos tipos de terreno, sob chuva ou sol, são hoje incomparáveis com os dos tempos de nossos avós. A ponto de hoje, nas corridas de Fórmula I, haver tipos diferentes desenvolvidos especialmente para pistas e condições de uso ultra-específicas,de acordo com a velocidade, frenagem, aceleração (frontal e lateral) e por aí vai.

Por outro lado, caminhos ruins também são um desafio e tanto para os fabricantes. Afinal, alternar trechos de alta velocidade – acima dos 100 km/h, em algumas pistas mais bem cuidadas – com outros que beiram o fora-de-estrada, com asfalto ondulado, esburacado ou mesmo “ausente”, com nós costumamos fazer exige calçados especiais. Mas se para fabricar um pneu capaz de ser eficiente (e resistente) em situações tão diversas é preciso muito investimento e tutano, para fazer com que esses “sapatos” funcionem adequadamente nos “pés” dos nossos carangos a coisa é relativamente mais simples.

A dica principal é mantê-los sempre calibrados, conforme as instruções do manual do proprietário do carro. Segundo o especialista Murillo Piloto, chefe da equipe de competição Tekprom, pneus, se bem conservados, com pressão correta, em um carro alinhado e que passem por um rodízio entre os eixos a cada 10.000Km, podem durar entre 60 mil e 80 mil Km. Ele alerta que, apesar de a maioria dos carros de passeio atuais ter tração dianteira, os pneus traseiros têm um papel importantíssimo na segurança e não devem ser negligenciados (algo, infelizmente, comum entre os motoristas). Eles são o “leme” do carro, e quando estão muito desgastados, levam à perda de estabilidade. Por isso, uma boa olhada nos pneus, sempre que for calibrá-los no posto, ao menos de duas em duas semanas, é fundamental. Pneu gasto deve ser trocado o quanto antes.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Peso-pesado, risco dobrado

(Publicado originalmente em 27/05/2004)

Este seu amigo aqui já desenvolveu um desconfiômetro extra para “as novas e estarrecedoras descobertas” da ciência – e, em particular, da medicina – que costumam ser divulgadas quase que diariamente. Não só por e-mails, mas também nas respeitáveis páginas de ciências dos jornais. É incrível. Num dia, você lê em garrafais e categóricas letras que o tomate é o novo vilão da doença X. Semanas depois, publica-se um estudo que aponta o mesmo fruto como miraculoso insumo na batalha contra o câncer. E tome notícias sobre os incríveis poderes do alface, os perigos da carne vermelha – e também sobre as suas propriedades –, os males do celular, da TV (que, por outro lado, serviria para compensar a falta de sol) e por aí vai. De tal forma que, se tudo o que dizem, de bom e de mal, for realmente verdade, podemos ter certeza de que caminhamos todos para morrermos logo e perfeitamente saudáveis.

Essa enxurrada de informações por vezes antagônicas se deve, é claro, à pluralidade de correntes de pesquisa e à velocidade com que qualquer notícia corre o planeta hoje. E também, reconheçamos, aos critérios pouco confiáveis adotados por quem as passa adiante, seja em mensagens para os amigos ou em publicações ditas sérias.

Por tudo isso que ocupa as linhas anteriores, antes de mencionar qualquer “descoberta” ou resultado de pesquisa aqui na Rebimboca, procuro verificar sua origem, método, universo pesquisado e outros detalhes determinantes. Em certas ocasiões, no entanto, as “descobertas” beiram o óbvio. E isso se aplica ao que foi divulgado pela ONG inglesa RAC Foundation – dedicada a “promover o debate sobre os aspectos econômico, funcional e de segurança relacionados ao uso de veículos a motor” (segundo seu site na Internet).

Depois de um levantamento nos registros de acidentes de trânsito no Reino Unido, a fundação descobriu que os obesos, com mais de 100 kg de peso, têm até 2,5 vezes mais chances de morrerem em desastres automotivos que os outros, mais leves, com pesos mais próximos aos 60 kg. Não é difícil entender porque isso acontece. Como praticamente todos os produtos fabricados em escala industrial, os automóveis são projetados para indivíduos que representem a média do consumidor. E, por mais que no projeto de um carro essa média tenha uma faixa razoável de abrangência – em termos de peso para adultos, digamos, entre os 50 e os 85 kg, quem estiver fora desses valores, no mínimo, vai ter menos conforto. Se com as crianças (evidentemente mais leves que a média) compensamos isso usando cadeirinhas e almofadas especiais, para os mais pesados, essa compensação se torna mais complexa. Todos os recursos de segurança de um carro – cintos, assentos, air-bags etc. – são dimensionados para peso menor e podem ser insuficientes para protegê-los. Não seria o caso haver opcionais especialmente dimensionados para essas pessoas “fora da curva”?

Nos EUA, onde o índice de obesos é grande e crescente, essa idéia, com certeza, já deve estar na pauta das montadoras.

Que carro eu compro?

(Publicada originalmente em 11/11/2004)

A pergunta acima é a que mais escuto e que, certamente, a que todos os colegas que escrevem sobre automóveis escutam. É alguém comentar “ele escreve no Dia, sobre carros” e, quase de bate-pronto, a frase terminada com a interrogação aparecer. Ainda que, na prática, poucos do que perguntam tenham realmente a intenção de comprar um novo carro nos próximos dias ou semanas. E isso acontece porque quase todo mundo gostaria de colocar um carango novo na garagem – quando não sonha em colocar ali o primeiro carro.

A resposta pode parecer simples. Afinal, quem está permanentemente inteirado do mundo automobilístico – por necessidade profissional e, no meu caso, por prazer – têm acesso a uma enorme quantidade de informações técnicas e práticas sobre todos os modelos disponíveis. E, não raro, já deu até umas voltinhas ao volante da maioria desses modelos. Mais ou menos como os conhecedores de vinho, que são capazes de apontar as melhores garrafas de cada safra, os jornalistas automotivos deveriam poder indicar os melhores modelos e marcas de cada ano.

Pois se com os vinhos a questão costuma se resumir ao custo e benefício, com os carros a coisa se complica um tanto mais. Para começo de conversa, ninguém compra vinho usado – e os automóveis, quando bem tratados, podem ser boas compras mesmo depois de vários anos de serviços prestados. Além disso – e me perdoem os enólogos se escrevo algum absurdo, pois de vinhos só entendo, e pouco, de bebê-los moderadamente e sem critérios dignos de nota –, quando escolhemos um carro, além de seu preço e do prazer (ao dirigir) que ele proporciona, devemos levar em conta outras características como praticidade, consumo, aplicações no dia-a-dia (se vai ser usado somente na cidade, com qual freqüência, para transportar quantas pessoas) etc. É claro que, como o melhor vinho da carta de um bom restaurante, comprar um dos modelos mais caros e sofisticados do mercado – quando a carteira não é um condicionante – é garantia quase certa de satisfação, qualidade, impacto social. Todo mundo, nas mesas em volta (caso do vinho) ou no quarteirão (caso do carrão) vai notar e admirar a sua escolha. Por outro lado, até onde eu saiba, tomar um vinho caríssimo em um bom restaurante não aumenta as chances de se tornar vitima de seqüestro. Já saracotear por aí a bordo de um mega-carango...

Enfim – que estamos nos perdendo nessa conversa –, indicar “o melhor” carro para alguém não é das coisas mais cartesianas. E, para sair dessa enrascada, seguindo uma tradição ancestral de família, costumo responder a pergunta com outras duas ou três, sobre o uso, o quanto se quer gastar, o estilo de vida etc. E, invariavelmente, termino o meu “script” padrão com um só conselho concreto e útil: antes de comprar qualquer carro, faça um test-drive com todos os candidatos. No final das contas, decidido o preço e a faixa de segmento do modelo, o melhor critério para escolher um carro novo é a afinidade. E, no caso dos usados, a precaução. Mas isso já é assunto para outra conversa.

Lá vêm os bermudinhas

(publicado originalmente em 9/12/2004)

Há tempos, publicamos aqui na Rebimboca uma série de crônicas dedicadas a personagens do trânsito nosso de cada dia. Motoristas, motociclistas e pedestres com perfis característicos. Uma grande galeria de tipos que, hoje, ganha mais um integrante. E sua identificação e “catalogação” me foi passada pelo mecânico Alexandre Corrêa, que por sua vez ouviu falar do dito cujo, pela primeira vez, em um curso que fez em São Paulo. Ouviu falar do apelido, que fique claro, pois o personagem ele conhece muito bem e há muitos anos. Mas deixo o Alexandre contar essa história, tentando reproduzir a seguir suas palavras:

“O instrutor do curso, que era também um mecânico veterano e tinha um sotaque carregado, típico do interior paulista, no meio de uma conversa, comentou que sábado era o pior dia para quem trabalhava em oficina mecânica. A maioria dos alunos do curso estranhou a afirmação e alguns até retrucaram, dizendo que sábado é um bom dia, com muito movimento. O instrutor então se explicou, dizendo que sábado de manhã era o dia dos bermudinhas. Um monte de camaradas que trabalham a semana inteira fechados em escritórios e que, na manhã de sábado, sem nada melhor para fazer, vestem suas bermudas e seguem para as oficinas. E chegam lá, com seus carrinhos reluzentes e suas perninhas branquelas, geralmente, pedindo ao mecânico que troque uma lâmpada, aperte um parafuso ou algo assim. Eles vêm aos montes, enchem a oficina, falam e perguntam sem parar e acabam fazendo com que o expediente seja prolongado – afinal, no sábado, a maioria das oficinas só funciona até o meio-dia. Além de aturar os bermudinhas, os mecânicos ainda têm de se explicar quando chegam, atrasados, em casa”, conclui Alexandre.

No do ano, as oficinas costumam ficar ainda mais cheias. Muita gente entra em férias coletivas, tem recesso de fim de ano etc., e, para poder pegar a estrada com tranqüilidade e segurança, é bom mesmo aproveitar um desses sábados pela manhã, uma ou duas semanas antes do Natal, para levar o carango ao seu mecânico de confiança. Muitas vezes, não há nada em especial para ser feito, nenhum problema aparente. O mecânico coloca o carro no elevador e faz um exame cuidadoso da suspensão, procura por vazamentos, vê se tudo está em ordem. E depois verifica todas as correias e mangueiras, velas, filtros etc., substituindo o que já estiver desgastado.

Ou seja, ser um bermudinha nesse caso em especial, não é demérito para ninguém e sim sinal de que o motorista é consciente e responsável. Qualificações muito importantes para ter um ótimo Natal e uma passagem de ano tranqüila.

Uma sábia decisão

(Originalmente publicado em 4/11/2004)

É como uma impressão digital, que fica mesmo quando se usam luvas, ainda que não se toque com os dedos. Costumamos colocar a nossa marca em tudo o que fazemos, querendo ou não. Desde o que produzimos com o maior dos caprichos e esperança, até o que cometemos sem a menor pretensão ou mesmo com desdém. Gestos diários e comezinhos, como abrir a porta do elevador para um vizinho passar – carimbado pela expressão que colocamos no rosto –, preparar uma omelete (com salsinha e queijo minas) ou colocar o lixo para fora revelam muito de nossa personalidade, de nosso estilo e dos nossos sentimentos. Quando dirigimos, não é diferente.

Aliás, poucas coisas que fazemos em nossas rotinas diárias revelam tanto de nós mesmos e de forma tão direta quanto a maneira com que dirigimos nossos carros. Humor, agressividade, gentileza, egoísmo, paciência, pressa, otimismo, solidão... E só não tasco um “diz-me como diriges e te direi quem és” aqui com mais convicção porque ando meio inseguro quanto as minhas habilidades psicanalíticas em relação aos outros. Que em mim mesmo, motorista, já sou especialista. E por isso mesmo, procuro tomar cuidado redobrado naqueles dias em que o pão do café da manhã caiu de manteiga pra baixo e que a obra na casa do vizinho começou antes das 7h. Principalmente se, na véspera, houve reunião de condomínio e a parte “assuntos gerais” da pauta consumiu mais de duas horas; se o Fluminense levou uma chinelada do Santos e, àquela pontinha de enxaqueca, se junta uma dorzinha no joelho direito – fruto de uma caquerada na mesa da sala, que alguém colocou ali (eu mesmo, claro), há cinco anos, insuficientes para que pudesse memorizar sua posição e colocá-la no meu GPS da madrugada.

Como eu, milhares de outras pessoas que, de um modo geral, são educadas e conscientes têm lá seus dias cinzentos. E, ao volante, podem fazer com que a tal nuvenzinha sobre a cabeça se espalhe pelas ruas ou pela estrada. Seja numa buzinada perfeitamente dispensável, numa acelerada para não ceder a vez a outro motorista ou para passar o sinal amarelo ou em qualquer outra manobra brusca que, em condições normais, não faríamos. Em nome de nossa boa reputação, para não “assinar” ou deixar nossa marca em atitudes no mínimo antipáticas, é nesses dias azedos que precisamos ter ainda mais cuidado, calma, generosidade. Ou seja, quando – parafraseando o Djavan – estiver “difícil ser eu”, pense mais nos outros. Pensando assim, eu, hoje, vou deixar meu carro na garagem.

A responsabilidade social também viaja em cada carro

(publicado originalmente e. 10/2/2005)

Toda época tem seus temas e preocupações dominantes, que acabam incluindo novos jargões na linguagem do dia-a-dia (às vezes com novas gírias) e, por conta disso tudo, influenciando os padrões de comportamento de toda a sociedade. É claro que esse é um processo dinâmico, em que determinados assuntos crescem ou diminuem de interesse aos poucos. Por exemplo: hoje é difícil participar de uma rodinha de conversa, seja na rua, num bar, numa festa ou mesmo naquele papo morno que antecede reuniões de trabalho sem que a segurança – ou a preocupante falta dela – em nossa cidade entre na pauta. Um assalto, uma bala perdida ou o tio que comprou um carro blindado são figurinhas fáceis nas conversas. Da mesma maneira que o telefone celular – e as mudanças em nossas vidas que ele provocou e/ou permitiu – foi um assunto dominante há alguns anos, que a Internet e suas possibilidades (e todos os seus jargões) na segunda metade dos anos 1990 e as viagens espaciais no final dos anos 1960.

Pois um assunto que anda saudavelmente em baila nesse nosso começo de século é a chamada responsabilidade social. Diretamente mais associada ao papel e à prática das empresas, governos e outras organizações, essa tal responsabilidade, em resumo, trata da melhor maneira de interagir com a sociedade e com o meio ambiente. Ou seja: empresa socialmente responsável promove o desenvolvimento social, se compromete com causas que levem à melhoria da qualidade de vida – de seus funcionários e das pessoas que, de alguma forma, são afetadas por suas atividades – e também se preocupa com o impacto que seu negócio provoca no meio ambiente, evitando desequilíbrios e, sempre que possível, contribuindo para a preservação e a recuperação ambiental. E o que tenho eu e a Rebimboca a ver com isso?, pergunta você, já sem paciência. Tudo.

Transportando os princípios da responsabilidade social para a nossa realidade “individual”, podemos fazer muito por todos. Principalmente, é claro, se formos a maioria. Explico. Dirigindo de forma consciente e civilizada, estamos contribuindo para aumentar a qualidade de vida no trânsito, diminuindo o stress na cidade e servindo como exemplo para os outros. Mantendo nossos carros em boas condições, seguros e com baixos índices de emissões de poluentes, estamos entrando com uma parte preciosa na melhoria da qualidade ambiental. Evitando acelerar desnecessariamente, deixando a buzina calada e até economizando combustível, estamos nos mostrando responsáveis e solidários com toda a sociedade. Parece pouco, mas pode ser muito. E decisivo. Só depende de cada um de nós.