domingo, 3 de junho de 2007

Um dia, uma Kombi

Escolhi este texto, publicado originalmente em 2.4.99, para inaugura a Rebimboca virtual. Em breve, pretendo colocar no arquivo deste blog todas as colunas publicadas ao longo desses anos, bem como postar aqui novos textos.

HK

Tadao‚ é um senhor japonês nos seus sessenta e poucos anos, simpático, sorridente e generoso. Todos os dias, ele faz o mesmo percurso, de sua casa até a pequena quitanda da família, coisa de três quilômetros, na velha Kombi 63 verde água malhada de pintas de massa cinza. Como todos no bairro o conhecem de longa data, raro é o dia em que o verdureiro não pára no caminho para dar carona aos vizinhos.

Por isso mesmo, outro dia, logo na esquina da rua onde mora, Tadao parou e ofereceu condução a duas senhoras de idade (eufemismo respeitoso para velhinhas, muito velhinhas), que iam na mesma direção. Não andou 50 metros e foi parado por Seu Humberto e seu filho, Joãozinho, atrasado para o colégio - que ficava praticamente ao lado da Casa do Sol Nascente, local de labuta do motorista. A esta altura, o papo dentro do carro já rolava animado. Dona Clotildes servia um pouco da limonada que trazia em uma garrafa térmica para seu filho, Fernando, professor na faculdade do bairro e para quem a zelosa senhora levava o lanche todas as manhãs.

Nova esquina, nova parada. Desta vez embarcaram Dario, Marconi e João, três cearenses que faziam biscates e obras na vizinhança. Traziam com eles ferramentas e também as marmitas. Não haviam se acomodado ainda quando a Kombi brecou novamente e, portas abertas, deixou entrar o padre Voguel, um velho, rosado e rechonchudo alemão, fanático por Fuscas e cerveja. Com ele embarcaram seu sacristão, o recatado Luís Artur, e o tocador de sino da igreja, o espevitado Rogério, que trazia uma galinha viva enrolada num jornal.

A coisa já começava a ficar meio, digamos, íntima demais entre os divertidos passageiros quando, a menos de 500 metros do ponto final, nosso bondoso Tadao resolveu dar mais uma paradinha e oferecer transporte à família Fonseca da Rocha - leia-se o padeiro Eduardo, a mulher e os três filhos, estes últimos carinhosamente apelidados no bairro de trio DDD.

Quando a Kombi finalmente parou em frente à mercearia, e Urubu, o balconista, resolveu ajudar a turma abrindo as portas do carro, aconteceu algo que o bairro inteiro comenta até hoje: cuspidos para fora num estouro, como champanhe nacional em noite de reveillon, todos os passageiros saíram rolando pela calçada. Felizmente, ninguém se feriu e a Kombi, acreditem, já estava a postos para o caminho de volta.

Nota do colunista: se você acha que já assistiu a essa cena em algum filme, está certo. Ela, passada em um camarote de navio, faz parte do antológico “Uma noite na ópera”, com os Irmãos Marx, de 1935. Um pouquinho mais antigo do que o projeto da Kombi.

Nenhum comentário: