(Originalmente publicado em 4/11/2004)
É como uma impressão digital, que fica mesmo quando se usam luvas, ainda que não se toque com os dedos. Costumamos colocar a nossa marca em tudo o que fazemos, querendo ou não. Desde o que produzimos com o maior dos caprichos e esperança, até o que cometemos sem a menor pretensão ou mesmo com desdém. Gestos diários e comezinhos, como abrir a porta do elevador para um vizinho passar – carimbado pela expressão que colocamos no rosto –, preparar uma omelete (com salsinha e queijo minas) ou colocar o lixo para fora revelam muito de nossa personalidade, de nosso estilo e dos nossos sentimentos. Quando dirigimos, não é diferente.
Aliás, poucas coisas que fazemos em nossas rotinas diárias revelam tanto de nós mesmos e de forma tão direta quanto a maneira com que dirigimos nossos carros. Humor, agressividade, gentileza, egoísmo, paciência, pressa, otimismo, solidão... E só não tasco um “diz-me como diriges e te direi quem és” aqui com mais convicção porque ando meio inseguro quanto as minhas habilidades psicanalíticas em relação aos outros. Que em mim mesmo, motorista, já sou especialista. E por isso mesmo, procuro tomar cuidado redobrado naqueles dias em que o pão do café da manhã caiu de manteiga pra baixo e que a obra na casa do vizinho começou antes das 7h. Principalmente se, na véspera, houve reunião de condomínio e a parte “assuntos gerais” da pauta consumiu mais de duas horas; se o Fluminense levou uma chinelada do Santos e, àquela pontinha de enxaqueca, se junta uma dorzinha no joelho direito – fruto de uma caquerada na mesa da sala, que alguém colocou ali (eu mesmo, claro), há cinco anos, insuficientes para que pudesse memorizar sua posição e colocá-la no meu GPS da madrugada.
Como eu, milhares de outras pessoas que, de um modo geral, são educadas e conscientes têm lá seus dias cinzentos. E, ao volante, podem fazer com que a tal nuvenzinha sobre a cabeça se espalhe pelas ruas ou pela estrada. Seja numa buzinada perfeitamente dispensável, numa acelerada para não ceder a vez a outro motorista ou para passar o sinal amarelo ou em qualquer outra manobra brusca que, em condições normais, não faríamos. Em nome de nossa boa reputação, para não “assinar” ou deixar nossa marca em atitudes no mínimo antipáticas, é nesses dias azedos que precisamos ter ainda mais cuidado, calma, generosidade. Ou seja, quando – parafraseando o Djavan – estiver “difícil ser eu”, pense mais nos outros. Pensando assim, eu, hoje, vou deixar meu carro na garagem.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
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