segunda-feira, 4 de junho de 2007
Combustível alternativo na torneira
Tanta conversa sobre motores flexíveis e combustíveis alternativos me fizeram resgatar uma lembrança dos tempos em que era criança, lá pelos fins dos anos 1960, início dos 1970. Naquele tempo, lembro de ter visto um dia na televisão, na casa de meus avós, um sujeito apresentar um carro revolucionário. O programa era o do Flávio Cavalcanti, uma combinação de variedades, calouros e sensacionalismo na finada TV Tupi. Na minha memória, o tal programa era “interminável” – pois começava por volta das oito da noite e terminava depois de minha hora de dormir. Acho que nunca cheguei a assistir ao seu encerramento. O tal inventor, no entanto, me fez dormir um pouco mais tarde naquela noite.
Alardeado pelo apresentador como “exclusivo e inédito” e prometido sempre para depois dos próximos comerciais acabou aparecendo bem tarde – me lembro da expressão séria do Flávio Cavalcanti, tirando seus óculos quadrados e de armação escura, encarando a câmera e pedindo: “nossos comerciais, por favor,”.
Naqueles tempos em que o videotape era novidade e as câmeras de vídeo uns trambolhos, as raras reportagens externas eram feitas em filme. Com as limitações técnicas da época, não era raro surgirem defeitos na projeção, entrarem cenas erradas etc. Assim, quando finalmente o apresentador chamou a reportagem sobre o “carro revolucionário”, e entrou um filme sem som, mostrando um velho Chevrolet preto dos anos 1940, achei que tinham colocado as imagens erradas no ar. Por uns 10 ou pouco mais segundos, vi na tela um senhor de cabelos brancos com uma mangueira de jardim, que parecia jogar água sobre o velho carro, depois entrar nele, dar a partida e sair guiando pela rua.
Quando o programa voltou para o auditório, o tal senhor estava ao lado do apresentador, no palco, e o mistério, ao menos em parte, foi explicado. “Estamos aqui com o Professor Fulano de Tal, que criou e patenteou o incrível automóvel que os senhores acabam de ver”, foi mais ou menos o que disse, com sua voz metálica e enérgica, o Flávio Cavalcanti. “Um automóvel que irá resolver todos os problemas de transporte, um carro movido à água”.
Lembro-me do “oohhhhh” geral do auditório e de um comentário igualmente perplexo do meu avô, que assistia ao programa comigo. Mas, infelizmente, não me lembro de nada sobre a possível explicação que o tal inventor possa ter dado sobre o funcionamento do motor de seu fantástico automóvel. Como nunca mais ouvi falar sobre esse tipo de carro, presumo que fosse tão verdadeiro quanto o rapaz que, no quadro anterior, fumava e soltava a fumaça pelos ouvidos – com mal-disfarçados tubos maquiados, ligando sua boca às orelhas. Naquela noite, no entanto, sonhei que dirigia o velho Dodge 50 e poucos do meu avô, abastecido na torneira de casa.
Caros, potentes e muito econômicos
Quando falamos de carros híbridos – os que utilizam de forma alternada, cominada ou simultânea combustíveis (como gasolina, álcool, gás natural ou diesel) e eletricidade –, geralmente pensamos em modelos compactos e simples, destinados ao chamado “consumidor típico” dos grades centros urbanos. Isso porque, até aqui, apesar do preço salgado, se comparado ao dos carros comuns, os híbridos que já estão em linha de produção – como o Toyota Prius e o Honda Isight, vendidos há tempos no Japão e nos EUA – são carros de pequeno porte, sem maiores preocupações com status (a não ser por conferirem uma pose de politicamente correto de vanguarda aos seus proprietários) ou performance mais estimulante.
Pois bem, no recente Chicago Auto Show, alguns novos modelos híbridos ganharam destaque justamente por romperem com essa tradição. Os primeiros deles são versões da picape grande Silverado e de sua irmão Sierra com propulsão combinada de grande desempenho. Afinal, não teria futuro no mercado um utilitário grandalhão como esses sem força à altura. A concorrente conterrânea Ford também embarcou na onda e apresentou um SUV (esportivo utilitário) Escape “ambivalente”, com motor elétrico combinado a outro, um quatro cilindros de 2.3 litros a gasolina e que promete um consumo médio de 12,7 km/litro. Nada mal para um carro desse tipo – os donos de Blazers e similares hão de concordar. Aliás, um detalhe sobre o consumo desse tipo de carro é bastante curioso: os híbridos são mais econômicos na cidade que na estrada. Isso porque é justamente no trânsito pesado e lento que o apoio elétrico é mais usado, aliviando a voracidade do sistema de injeção. Em velocidades mais altas, os volts são deixados de lado e quem trabalha são as octanas.
Também no campo dos brucutus, mas com muito mais finesse, o Lexus RX 400h, que chega às lojas de lá em abril, é um SUV de luxo, com um motorzão V6 de 268 cavalos-vapor ao lado de um propulsor elétrico. Gerenciados pelo Hybrid Synergy Drive System, o mesmo utilizado no “veterano” Toyota Prius, fabricado pelo mesmo grupo, ele ganha não só economia, mas também é ultravitaminado na força: tem nada menos que 15 vezes mais torque que seu gêmeo, o RX 330, movido apenas a gasolina.
Ainda sem previsão de lançamento, mas prometido para os próximos anos, um luxuoso sedanzão Mercedes Classe S, equipado com um motor diesel V-8 de 340 cavalos combinado a outro elétrico, capaz de voar pelas autobans com um consumo médio de 12 km/litro, vai marcar definitivamente a entrada dos carrões no segmento dos híbridos. É esperar para ver.
O primeiro vôo a gente nunca esquece
Para quem, como eu, vem de uma família de classe média, que tinha um carro na garagem (e outros tantos na memória), chegar à maioridade traz junto a encantadora possibilidade de tirar carteira de motorista e – finalmente! – ganhar as ruas por conta própria. Isso implica em também poder escolher caminhos mais longos, destinos mais distantes. Ou seja, se encaixa com perfeição com o saudável movimento em direção à liberdade e à independência que costuma acompanhar essa fase de nossas vidas.
No meu caso, o carro era um Fuscão, personagem presente em minha infância e que, à época dos meus 18, estava inteiramente disponível. Lembro-me vagamente dos litros e litros de suor deixados nos bancos dos carros da auto-escola; menos um pouco do nervosismo de fazer as provas práticas – e, no meu tempo, isso significava enfrentar muito mais do que o simples desafio de dirigir corretamente e estacionar o carro sem derrubar as balizas. Mas me lembro com clareza e prazer da primeira vez em que saí da garagem em Laranjeiras, ao volante, para buscar uma namorada em Ipanema. Meu pai, no banco do carona, me acompanhou pelos primeiros 100 metros. Daí, para não me atrapalhar (somados, nossos nervosismos abarrotavam o fusca), pediu que eu parasse, desceu do carro e me desejou sorte.
Enfrentar o medo e a insegurança dos que voam para fora do ninho pela primeira vez é fácil, já que sobra pouco espaço para o temor quando se “voa” pela primeira vez. De qualquer modo, zeloso até demais, me lembro que levei meses para passar dos 60 km/h, merecendo buzinadas e reclamações dos veteranos. Com o tempo, dirigir passou a ser tão normal e comum quanto outros gestos do dia-a-dia. Mas o carro na garagem, a possibilidade de usá-lo, quando quisesse, para ir a qualquer lugar, nunca perdeu para mim o ar de coisa mágica, de bênção, de manifestação de liberdade.
Conto isso tudo hoje a você, leitor, porque acabo de olhar para a minha carteira de habilitação e percebi que, neste mês de setembro, faz exatos 25 anos daquela primeira tarde em que fiz meu primeiro “vôo solo”. E percebi que o tempo anda muito mais rápido que o fusca do meu pai.
O primeiro vôo a gente nunca esquece
Para quem, como eu, vem de uma família de classe média, que tinha um carro na garagem (e outros tantos na memória), chegar à maioridade traz junto a encantadora possibilidade de tirar carteira de motorista e – finalmente! – ganhar as ruas por conta própria. Isso implica em também poder escolher caminhos mais longos, destinos mais distantes. Ou seja, se encaixa com perfeição com o saudável movimento em direção à liberdade e à independência que costuma acompanhar essa fase de nossas vidas.
No meu caso, o carro era um Fuscão, personagem presente em minha infância e que, à época dos meus 18, estava inteiramente disponível. Lembro-me vagamente dos litros e litros de suor deixados nos bancos dos carros da auto-escola; menos um pouco do nervosismo de fazer as provas práticas – e, no meu tempo, isso significava enfrentar muito mais do que o simples desafio de dirigir corretamente e estacionar o carro sem derrubar as balizas. Mas me lembro com clareza e prazer da primeira vez em que saí da garagem em Laranjeiras, ao volante, para buscar uma namorada em Ipanema. Meu pai, no banco do carona, me acompanhou pelos primeiros 100 metros. Daí, para não me atrapalhar (somados, nossos nervosismos abarrotavam o fusca), pediu que eu parasse, desceu do carro e me desejou sorte.
Enfrentar o medo e a insegurança dos que voam para fora do ninho pela primeira vez é fácil, já que sobra pouco espaço para o temor quando se “voa” pela primeira vez. De qualquer modo, zeloso até demais, me lembro que levei meses para passar dos 60 km/h, merecendo buzinadas e reclamações dos veteranos. Com o tempo, dirigir passou a ser tão normal e comum quanto outros gestos do dia-a-dia. Mas o carro na garagem, a possibilidade de usá-lo, quando quisesse, para ir a qualquer lugar, nunca perdeu para mim o ar de coisa mágica, de bênção, de manifestação de liberdade.
Conto isso tudo hoje a você, leitor, porque acabo de olhar para a minha carteira de habilitação e percebi que, neste mês de setembro, faz exatos 25 anos daquela primeira tarde em que fiz meu primeiro “vôo solo”. E percebi que o tempo anda muito mais rápido que o fusca do meu pai.
domingo, 3 de junho de 2007
Nascimentos e lançamentos
(publicada originalmente em 8/10/1998)
De certa forma, um salão de automóveis como o de Paris* é, para os designers, engenheiros e técnicos da indústria automobilística, o que é um berçário para papais e mamães. Afinal, depois de um longo tempo de expectativas, ansiedade e doses generosas de carinho e dedicação, eles (pais de bebês e de lançamentos) apresentam ao mundo suas mais novas criações. E se o início da produção de um ser humano é mais simples – e, certamente, muito mais divertido – do que o ponto de partida para um novo modelo de carro, a tensão que envolve seu período de gestação pode ser muito semelhante.
Para que um automóvel nasça, é preciso antes que haja uma pesquisa de mercado para saber se há lugar para ele no mundo – o que a superpopulação do planeta nos mostra que não é levado em conta na procriação humana. Longe de ser puro rompante, a criação de um carro é algo predominantemente técnico. A emoção embutida no projeto é dosada, pensada e controlada. E se homens e mulheres já nascem linhas de montagem aptas à produção em série, a cada novo produto, as fábricas se vêem obrigadas a remodelar boa parte de suas instalações, substituir ferramentas e, muitas vezes, operários.
Afinal de contas, o modelo Gente 1.0 já é produzido há milhões de anos com sucesso e, além de tudo, não tem garantia de fábrica e não prevê recalls ou queixas ao Procon. E se ao longo dos anos um filho não satisfaz seus pais, o máximo que eles podem fazer é psicanálise. Já cada novo automóvel que surge tem que ter o que há de mais moderno em tecnologia e não pode apresentar defeitos sob o risco de manchar perigosamente a imagem de seu fabricante.
Bem, este colunista nunca fabricou automóvel (carrinho de rolimã não vale!), mas acaba de lançar no mercado seu segundo produto: um garotão de bochechas rosadas e apetite de leão. Por isso, leitor, peço que desculpe qualquer exagero nas comparações. Como os engenheiros do Salão de Paris diante de suas novas criações, estou todo prosa com a novidade.
(*) – Na mesma edição, o caderno de automóveis publicou uma grande matéria sobre o Salão de Automóveis de Paris de 1998.
Um dia, uma Kombi
Escolhi este texto, publicado originalmente em 2.4.99, para inaugura a Rebimboca virtual. Em breve, pretendo colocar no arquivo deste blog todas as colunas publicadas ao longo desses anos, bem como postar aqui novos textos.
HK
Por isso mesmo, outro dia, logo na esquina da rua onde mora, Tadao parou e ofereceu condução a duas senhoras de idade (eufemismo respeitoso para velhinhas, muito velhinhas), que iam na mesma direção. Não andou
Nova esquina, nova parada. Desta vez embarcaram Dario, Marconi e João, três cearenses que faziam biscates e obras na vizinhança. Traziam com eles ferramentas e também as marmitas. Não haviam se acomodado ainda quando a Kombi brecou novamente e, portas abertas, deixou entrar o padre Voguel, um velho, rosado e rechonchudo alemão, fanático por Fuscas e cerveja. Com ele embarcaram seu sacristão, o recatado Luís Artur, e o tocador de sino da igreja, o espevitado Rogério, que trazia uma galinha viva enrolada num jornal.
A coisa já começava a ficar meio, digamos, íntima demais entre os divertidos passageiros quando, a menos de
Quando a Kombi finalmente parou em frente à mercearia, e Urubu, o balconista, resolveu ajudar a turma abrindo as portas do carro, aconteceu algo que o bairro inteiro comenta até hoje: cuspidos para fora num estouro, como champanhe nacional em noite de reveillon, todos os passageiros saíram rolando pela calçada. Felizmente, ninguém se feriu e a Kombi, acreditem, já estava a postos para o caminho de volta.
Nota do colunista: se você acha que já assistiu a essa cena em algum filme, está certo. Ela, passada em um camarote de navio, faz parte do antológico “Uma noite na ópera”, com os Irmãos Marx, de 1935. Um pouquinho mais antigo do que o projeto da Kombi.